antónio paiva

escritor e poeta antónio paiva

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intertextualidade sentida

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Serra dos meus encantos/e dos meus progenitores,/que faz largar os prantos/de alegrias e dissabores.” António M.R. Martins, in Foz Sentida, pág. 21. 

vivemos como árvores apertadas na concavidade do rancor; somos pálpebras longínquas cerradas sem horizontes. não sabemos as palavras simples; subvertemos o respirar de cada uma delas. não sobe à serra quem vai para o deserto; não se aquece à fogueira quem é substância volátil. ah poetas do efémero!, que dissipais o escrito, sois ruptura fluxo e falha, sem nada a dizer no entanto, viveis no arco da pergunta e tendes como resposta o pranto.

o encanto é célula matriz; língua palavra e grão de luz, vogal a subir a serra pela encosta do silêncio progenitor. esplendor, rosto sereno, amplitude imensa; o júbilo tranquilo da alegria. libertai por isso os vossos sentidos; respirai o tempo e o saber. aprender é como uma luz que irriga o homem; qual mão suave e firme. quando somos verdadeiramente sérios naquilo a que nos entregamos; “nada é necessário nada é suficiente.”*

*António Ramos Rosa in Gravitações

Written by antónio paiva

Outubro 1, 2010 at 11:19 pm

Publicado em prosa, reflexão

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falta-me o sorriso de gioconda

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por não ser dotado do sorriso de gioconda,  sento-me na cadeira dos alívios, de olhos atentos no nada, evacuo de modo lento cansado e triste. distraio-me com a nudez mortal dos azulejos esverdeados que revestem as paredes. estou deprimido; remeto-me a estes monólogos escanzelados, pequenas manchas de textos marginais. grassa por aí uma pobreza que não é assumida, e não o é; por ser de matriz cultural. o “botas” bem que nos tramou; quando vociferou que: “o povo português devia ser pobre e humilde como a terra que trabalhava”. a verdade é que o povo português o levou a sério, tão a sério que a profecia do “botas” vigora como lei. maldito sejas ó “botas”!, devias ter caído da cadeira muito antes de nos teres amaldiçoado irremediavelmente!!!

Written by antónio paiva

Setembro 25, 2010 at 1:49 pm

Publicado em crítica, prosa

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O sabor das marés

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      Não sei onde guardar os silêncios do rosto. Não sei como desenhar-te os corpos em crescendo num manto de ondas. São tantas as vezes que a minha boca se funde no fogo dos teus lábios. Que adianta dizer-te que a madrugada é pôr-do-sol da lua cheia. Se a essa hora já não me escutas, apenas me sentes.

      Soubesse eu e chorar lava sem secar o tempo. Ficaria aceso na tua noite o tempo todo. Nos teus olhos nasceriam campos de trigo. Onde tu me colherias grão a grão. Matando a tua fome de mim. Aconchegando o celeiro do teu corpo.

      O canto dos silêncios ao sabor do serpentear do vento. Melodias da sede dos teus lábios. Amanhecer colhendo as maças do teu rosto. Adivinhar-te no canto do pássaro. Contemplar a gestação dos sonhos. A vertigem lúcida do oceano. O vaivém dos nossos corpos feitos de ondas. Saboreando a tua espuma. Poisando o meu rosto no teu ventre.

      No teu corpo a minha língua desenha as marés. Os meus dedos percorrem a pauta do teu corpo. Em busca da melodia perfeita. Vibrante é todo o teu ser. Perfeito. Agora somos espuma do mesmo oceano. Dois corpos, um só barco. Sem amarras. Premiando a loucura da paixão. Na baía do teu corpo apanho as conchas, com que farei o leito onde te deito a repousar. O sabor das marés também pode ser doce. O sabor das marés é doce.

      Fico por aqui na beirinha do teu sono. Enquanto as algas soluçam nas ondas. Os búzios tocam alvoradas. As gaivotas adivinham o sol. Ao longe na muralha o pescador lança o anzol. Nasce o dia. Aqui nasceu uma promessa. Uma promessa de vida.

in livro “Pedaços de Vida e Fantasia” – António Paiva 2009

Written by antónio paiva

Setembro 23, 2010 at 4:01 pm

Publicado em prosa

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retalhos

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a vida mente-me, as pessoas mentem-me. eu recolho as redes tranquilamente e depois minto-lhes também. mimetismo derramado em gestos; riso, choro, recusa, anuência, desejo, negação, ausência, presença, partilha, egoísmo, inveja, reconhecimento, amor, desamor, renúncia e recomeço.

umas vezes sou mais, outras sou muito menos, outras ainda volto-me as costas, outras tantas vejo-me na íntegra. espectro de querência durante a manhã, lugar de esopo ao entardecer, porque os espelhos mentem todas as noites. há em mim uma longanimidade intermitente, por vezes bálsamo, por vezes autoflagelação.

sou capaz de amar entre as fases da lua e nos plenilúnios, não sou capaz de viver sem um amor que acasale com o meu, ainda que eu seja a maior parte do tempo um rio de ausência. nem sempre é fácil transpor o pórtico ogivado e chegar até mim, no entanto rendo-me facilmente à surpresa do gesto, à delícia de me deixar escorrer pelo mel dos lábios, com os olhos marejados de sal.

Written by antónio paiva

Setembro 22, 2010 at 3:52 pm

Publicado em prosa