antónio paiva

escritor e poeta antónio paiva

o botão da braguilha

leave a comment »

estou à beira de alcançar o estatuto de um ser de paciência imensurável; isto tudo é nem mais nem menos, que o fruto de imensas convulsões de dúvidas, já que quanto a certezas as renego todas.

já por inúmeras vezes me confessei um narrador egoísta; a culpa é da minha ansiedade sublimatória – enfim, maleitas pessoais por via do enorme afecto à narrativa – neste preciso momento acabei de fechar os olhos e atirar ao ar um maço de folhas soltas; ó!, que pena, quem sabe acabei de desconjuntar um romance daqueles de criar barba e cabelo, [ena tanto pêlo!].

sempre tive azar com o botão da braguilha – sim, esse, o do meio – abre sem mais nem menos; qual magna chave do sacrilégio, que roda sub-repticiamente e me vai morder no sono mais profundo. só que; eu abomino o amor colegial e, odeio espremer borbulhas, para além disso não quero chamuscar a pele no roçar as velas; isso é coisa de borboletas chanfradas, que suicidam às marradas nos candeeiros da praça…

Anúncios

Written by antónio paiva

Setembro 28, 2010 at 10:04 pm

Publicado em surreal

Tagged with , , ,

quem lhe desse uma pancadinha carinhosa no toutiço

leave a comment »

dói-me o meu próprio embaraço, sempre que apalpo o meu desconforto intuitivo. a maior parte do tempo apetece-me encerrar; antes que esvazie a destempo as minhas prateleiras da lucidez. embora não duvide que ainda estou lúcido e capaz de enfrentar toda e qualquer coisa em forma de gente e, apesar de em tempos um ignóbil habitante de Jericó, se ter deslocado à beira do rio com o firme propósito de me surrar até à medula dos ossos, a verdade é que todo ele se me parece doente de morte. tomba e rola, tomba e rola; desmorona!, apresenta sinais de musgo, fungos e, onde outrora já exibiu penachos, surgem um pouco por todo ele crostas de pura demência. quem lhe desse uma pancadinha carinhosa no toutiço, repito; carinhosa, que não sou fã de violência, nem quero que a vã criatura afanique aparatosamente. desejo-lhe acima de tudo uma comoção com estilo e a gosto. e, que; quando chegar a sua hora, venha o anjinho da carroça nocturna e o leve em bem…

Written by antónio paiva

Setembro 27, 2010 at 9:27 am

Publicado em sátira

Tagged with , , ,

o disparate estala como o ouriço da castanha

leave a comment »

cá estou eu de novo na cadeira dos alívios; sofrendo de intoxicação de arrotos provincianos. e, como a paciência não põe ovos, não tenho omeletas de condescendência. [se não me entendem comprem um burro]. e não me estendam olhares lassos, que me pegam essa conjuntivite de idiotice. vá lá; ofereçam-me um sorrisinho subentendido, nos intervalos das bofetadas. raios partam o enguiço testicular de um povo que lhe impede o gozo colossal; é quebranto!; é quebranto!; gritam as mulas e as suas crias. o disparate estala como ouriço de castanha; tornando impossível o contacto com o útero da nação.

Written by antónio paiva

Setembro 26, 2010 at 12:07 am

Publicado em crítica

Tagged with , , ,

falta-me o sorriso de gioconda

leave a comment »

por não ser dotado do sorriso de gioconda,  sento-me na cadeira dos alívios, de olhos atentos no nada, evacuo de modo lento cansado e triste. distraio-me com a nudez mortal dos azulejos esverdeados que revestem as paredes. estou deprimido; remeto-me a estes monólogos escanzelados, pequenas manchas de textos marginais. grassa por aí uma pobreza que não é assumida, e não o é; por ser de matriz cultural. o “botas” bem que nos tramou; quando vociferou que: “o povo português devia ser pobre e humilde como a terra que trabalhava”. a verdade é que o povo português o levou a sério, tão a sério que a profecia do “botas” vigora como lei. maldito sejas ó “botas”!, devias ter caído da cadeira muito antes de nos teres amaldiçoado irremediavelmente!!!

Written by antónio paiva

Setembro 25, 2010 at 1:49 pm

Publicado em crítica, prosa

Tagged with , ,

Recensão crítica a Livro Imperfeito de António Paiva

leave a comment »

Recensão crítica a Livro Imperfeito de António Paiva, publicada na revista brasileira online TODAS AS MUSAS, Revista de Literatura e das Múltiplas Linguagens da Arte.

www.todasasmusas.org

A imperfeição ganha corpo (de letra) – Tiago Aires 

Professor de Língua Portuguesa e Português do 3.º ciclo e Ensino Secundário no Colégio D. Diogo de Sousa – Braga, Mestre em Literatura Românica, Estudos Brasileiros e Africanos pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

A quem leu e a quem não leu o livro, sugiro que sigam o link: http://www.todasasmusas.org/03Tiago_Aires.pdf acho que vale a pena despender algum tempo na leitura do artigo.

Written by antónio paiva

Setembro 24, 2010 at 3:28 pm

Publicado em livro

Tagged with ,

O sabor das marés

leave a comment »

      Não sei onde guardar os silêncios do rosto. Não sei como desenhar-te os corpos em crescendo num manto de ondas. São tantas as vezes que a minha boca se funde no fogo dos teus lábios. Que adianta dizer-te que a madrugada é pôr-do-sol da lua cheia. Se a essa hora já não me escutas, apenas me sentes.

      Soubesse eu e chorar lava sem secar o tempo. Ficaria aceso na tua noite o tempo todo. Nos teus olhos nasceriam campos de trigo. Onde tu me colherias grão a grão. Matando a tua fome de mim. Aconchegando o celeiro do teu corpo.

      O canto dos silêncios ao sabor do serpentear do vento. Melodias da sede dos teus lábios. Amanhecer colhendo as maças do teu rosto. Adivinhar-te no canto do pássaro. Contemplar a gestação dos sonhos. A vertigem lúcida do oceano. O vaivém dos nossos corpos feitos de ondas. Saboreando a tua espuma. Poisando o meu rosto no teu ventre.

      No teu corpo a minha língua desenha as marés. Os meus dedos percorrem a pauta do teu corpo. Em busca da melodia perfeita. Vibrante é todo o teu ser. Perfeito. Agora somos espuma do mesmo oceano. Dois corpos, um só barco. Sem amarras. Premiando a loucura da paixão. Na baía do teu corpo apanho as conchas, com que farei o leito onde te deito a repousar. O sabor das marés também pode ser doce. O sabor das marés é doce.

      Fico por aqui na beirinha do teu sono. Enquanto as algas soluçam nas ondas. Os búzios tocam alvoradas. As gaivotas adivinham o sol. Ao longe na muralha o pescador lança o anzol. Nasce o dia. Aqui nasceu uma promessa. Uma promessa de vida.

in livro “Pedaços de Vida e Fantasia” – António Paiva 2009

Written by antónio paiva

Setembro 23, 2010 at 4:01 pm

Publicado em prosa

Tagged with

retalhos

leave a comment »

a vida mente-me, as pessoas mentem-me. eu recolho as redes tranquilamente e depois minto-lhes também. mimetismo derramado em gestos; riso, choro, recusa, anuência, desejo, negação, ausência, presença, partilha, egoísmo, inveja, reconhecimento, amor, desamor, renúncia e recomeço.

umas vezes sou mais, outras sou muito menos, outras ainda volto-me as costas, outras tantas vejo-me na íntegra. espectro de querência durante a manhã, lugar de esopo ao entardecer, porque os espelhos mentem todas as noites. há em mim uma longanimidade intermitente, por vezes bálsamo, por vezes autoflagelação.

sou capaz de amar entre as fases da lua e nos plenilúnios, não sou capaz de viver sem um amor que acasale com o meu, ainda que eu seja a maior parte do tempo um rio de ausência. nem sempre é fácil transpor o pórtico ogivado e chegar até mim, no entanto rendo-me facilmente à surpresa do gesto, à delícia de me deixar escorrer pelo mel dos lábios, com os olhos marejados de sal.

Written by antónio paiva

Setembro 22, 2010 at 3:52 pm

Publicado em prosa